Os impactos potenciais das novas tarifas americanas sobre a economia brasileira
Desde a sua posse, o novo presidente americano vem cumprindo sua agenda de campanha com reiterados anúncios de aumento de tarifas sobre produtos importados pelos Estados Unidos. O dia 02 de abril, o chamado “Liberation Day” foi emblemático nesse sentido, com mudanças que atingiram o mundo todo. Naquele momento, o Brasil foi poupado: enquanto as tarifas em relação sobre algumas economias chegaram a 50% (depois elevadas para mais de 100% para a China durante o pior momento da guerra comercial), a alíquota para o Brasil ficou em apenas 10%, na chamada alíquota mínima.
Nesta última quarta-feira, 10 de julho, no entanto, uma mudança significativa foi anunciada e os produtos brasileiros importados pelos americanos serão taxados em extraordinários 50% a partir de agosto. Há impactos importantes para a economia brasileira principalmente no âmbito setorial, como veremos a seguir, ainda que eles não devam mudar a tendência de desaceleração moderada da nossa economia vista desde o início deste ano.
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Os impactos macroeconômicos
A estimativa dos impactos derivados das novas tarifas americanas ainda é preliminar, dada a proximidade do anúncio. Além disso, a extensão dos impactos dependerá de fatores ainda incertos, como a possibilidade de acordos e negociações com potencial para diminuir as tarifas, bem como a antecipação de exportações para os Estados Unidos antes do início da vigência em agosto. Os estudos econômicos, no entanto, apontam em uma única direção: a possibilidade de recuo moderado das estimativas de PIB por conta da queda no comércio exterior.
As exportações brasileiras representam cerca de 15,5% do PIB, mas a participação dos parceiros comerciais mostra que as vendas aos Estados Unidos correspondem a cerca de 12% deste montante, atrás apenas da China, cuja participação representa 28%. Em grandes números, portanto, o que é vendido pelos brasileiros aos americanos chega a cerca de 2% da nossa economia. As estimativas de recuo das projeções do PIB neste cenário seriam algo entre 0,1 e 0,3 p.p., o que indicaria que, no pior dos casos, o PIB brasileiro cresceria 1,9% esse ano ao invés dos 2,2% estimados anteriormente.

Mas ainda que o impacto sobre a atividade econômica seja moderado, há outros pontos a se considerar. As incertezas que agora pairam sobre as exportações brasileiras podem pesar sobre a entrada de recursos focados em comércio e investimento estrangeiro. Há, portanto, potencial de desvalorização da moeda brasileira que pode, inclusive, pressionar o IPCA e as expectativas de inflação ao consumidor.
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Os impactos setoriais
Ainda que o impacto sobre o PIB brasileiro pareça limitado, os impactos setoriais da nova tarifa podem ser relevantes. A pauta de exportações para os Estados Unidos tem uma concentração importante em combustíveis, ferro e aço, máquinas e equipamentos e aeronaves. Esses portanto devem ser os segmentos mais afetados pelas novas tarifas.

Neste sentido, as ações de empresas ligadas aos principais produtos da pauta de exportação para os EUA na bolsa brasileira são as que podem sentir os efeitos de forma mais intensa. Abaixo listamos as companhias que entendemos ter o maior efeito potencial:
Embraer (EMBR3) – Os Estados Unidos são um mercado relevante para as aeronaves que ela produz (60% de sua receita em 2024). No entanto, há nuances que podem amortecer ou potencializar os efeitos sobre a empresa, como a montagem de aeronaves em solo americano a partir da importação de componentes e a possibilidade de repasse de preços ao consumidor final.
Minerva (BEEF3) – A empresa tem exposição de 5% às exportações de carne bovina para os EUA que vêm enfrentando uma escassez do produto suprida pelo Brasil. Há possibilidade de mudança de parceiros comerciais, à medida que os EUA encontrem novos parceiros e o Brasil passe a exportar para outros países, mas as alternativas que o Brasil tem pagam menos pela carne que os americanos.
Em alguma medida, a Marfrig e JBS (empresas também focadas em proteína animal) podem sofrer um pouco com este contexto, mas para elas qualquer impacto será bem menor pois são menos expostas a exportações de carne bovina para os EUA.
Tupy (TUPY3), WEG (WEGE3) e Mahle Metal Leve (LEVE3) – Empresas de bens de capital têm nos EUA uma parte relevante de sua pauta de exportações. Para a Tupy, cerca de 14% da receita está exposta às novas tarifas e para o caso de LEVE, o percentual é de 10% (não há número preciso para WEG, mas as estimativas giram em torno de 7%).
Suzano (SUZB3) – 15% da receita da empresa, focada em papel e celulose, vem de exportações para os EUA e pode haver, portanto, impacto negativo das tarifas. Aqui podemos aplicar o mesmo racional usado para empresas exportadoras de carne bovina: o mercado se ajusta importando de outros locais e a empresa passa a exportar para outros clientes/regiões. Possivelmente o impacto líquido deste rebalanceamento é a venda a preços marginalmente piores para estes novos parceiros.
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Em resumo, a nova tarifa sobre produtos brasileiros gera efeitos limitados sobre a economia, que podem ser acompanhados por desvalorização da moeda brasileira e impactos setoriais mais relevantes. A extensão dos efeitos, no entanto, só poderá ser auferida após as rodadas de negociação e possíveis retaliações que devem acontecer daqui pra frente.
