Primeiras Impressões: IPCA de março já começa a incorporar efeitos inflacionários da guerra e vai a 0,88%
Por Marcela Kawauti – Economista-Chefe da Lifetime Gestora de Recursos
A variação de preços ao consumidor medida pelo IPCA ficou em 0,88% em março, acima dos 0,70% de fevereiro e das expectativas de mercado, que giravam em torno de 0,77%. O índice já começa a ser afetado pelas altas de commodities causadas pela guerra no Oriente Médio. O grupo Transportes avançou 1,64% no mês. Considerando apenas gasolina e óleo diesel (com altas de 4,59% e 13,90%, respectivamente), houve contribuição de 0,26 p.p. no período. Isso significa que, excluídas essas pressões, o IPCA ficaria em 0,62%. Também chama a atenção a alta do grupo Alimentação e Bebidas (1,56% no mês), puxada pela alimentação no domicílio (1,94%).
O índice acumulado em 12 meses avançou de 3,81% para 4,14%, e sua análise traz uma visão mais clara das pressões (novas e antigas) sobre o indicador. O grupo alimentação no domicílio, que vinha desacelerando desde meados do ano passado, ajudado pelo câmbio e pela safra, voltou a subir e passou de -0,11% para 0,51%. Além disso, os preços de serviços, bastante pressionados pela inflação de demanda desde 2025, ficaram em 5,91%, muito próximos do patamar de 6,00% registrado desde agosto do ano passado.
Por conta dos efeitos da guerra, vale a análise do núcleo, que exclui preços de alimentação e combustíveis. O indicador (que se aproxima do CPI core dos Estados Unidos) cresceu 4,70% no acumulado em 12 meses, patamar muito próximo ao do mês anterior. Isso indica que, apesar de incômoda, a inflação relacionada aos efeitos da guerra, por ora, encontra-se limitada a produtos específicos.


Em resumo, os dados da inflação de março começam a refletir o choque de oferta de commodities em curso, que se soma às pressões de demanda já observadas desde 2025. O resultado deve causar uma nova rodada de revisões das projeções de inflação, ao mesmo tempo em que limita o ciclo de queda de juros. O Banco Central deve manter, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária, o ritmo conservador adotado no início do ciclo, em março.
