Selic em compasso de espera: o que é necessário para o Banco Central iniciar o ciclo de corte de juros?
Marcela Kawauti – Economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos
Em junho de 2025 o Banco Central brasileiro completou o ciclo de alta de juros e levou a Selic de 14,75% para 15,00%. Além disso, indicou que as taxas seriam mantidas neste patamar por um período prolongado.
Em paralelo, a inflação ao consumidor medida pelo IPCA vem desacelerando desde abril e ficou abaixo de 5,0% na prévia do índice de agosto. Do mesmo modo, as projeções dos economistas apuradas pelo Relatório Focus, têm caminhado em direção à meta tanto para este ano quanto para o próximo.

Neste contexto, o mercado começa a discutir o início do ciclo de queda da taxa de juros Selic. No entanto, o timing desse momento ainda não é consenso. Os analistas divergem nas suas projeções que vão desde o final deste ano até março do ano que vem.
1. O que está acontecendo com a inflação?
A inflação ao consumidor medida pelo IPCA começou o ano de 2025 em trajetória ascendente. Em janeiro o indicador somava alta de 4,56% no acumulado em 12 meses, variação que atingiu o seu pico de 5,53% na mesma comparação até o mês de abril. A partir de então, houve uma leve desaceleração com o resultado chegando a 5,35% em julho e abaixo do patamar de 5,00% na prévia de agosto. 
Há dois vetores opostos atuando sobre os índices de preços. Por um lado, o recuo da taxa de câmbio ajudou no arrefecimento dos preços, com a cotação saindo do patamar dos R$ 6,20/USD ao final do ano passado para cerca de R$ 5,50/USD desde meados desse ano. O movimento já representa uma desvalorização de mais de 12% até meados de agosto e ajuda a performance benigna dos preços de alimentação no domicílio e bens industriais. Eles representam respectivamente 15,8% e 22,6% do IPCA.
Na outra direção, os preços de serviços ainda em elevação mitigam parte deste efeito. O grupo, que tem participação de quase 36% no índice, vem registrando sucessivas altas e se aproxima dos 6,0% na variação anual.
2. A importância do mercado de trabalho aquecido sobre a inflação de demanda
A inflação de serviços em alta traz uma informação bastante relevante para a política monetária. A partir da elevação da taxa Selic em setembro do ano passado, espera-se uma defasagem de 6 a 9 meses até que os efeitos da política monetária contracionista esfriem a atividade, a concessão de crédito, o mercado de trabalho e, por fim, a inflação.
Parte do trabalho pretendido pelo Banco Central foi feito pela evolução favorável do câmbio. Mas os grupos mais sensíveis à política monetária e em geral mais resistentes (como os preços de serviços) ainda não responderam completamente.
Isso acontece porque, apesar da desaceleração da atividade (medida, por exemplo, pelo IBC-Br), o mercado de trabalho segue bastante aquecido com a taxa de desemprego no menor patamar da série histórica. A esse impulso à demanda se somam também o crescimento da concessão de crédito e os programas fiscais de transferência de renda.
3. A evolução das expectativas de inflação
A mesma evolução vista na inflação corrente é observada nas expectativas coletadas pelo Banco Central do Brasil na pesquisa Focus. Ajudados pela taxa de câmbio favorável, alguns grupos foram fortemente revisados para baixo. Em janeiro os economistas esperavam um crescimento de 6,33% nos alimentos no domicílio, variação que passou para 5,30% em meados de agosto[1]. Na mesma linha a projeção para os industrializados que era de 3,60% está cada vez mais próxima de 3%.
As expectativas para preços de serviços, por outro lado, não saíram da proximidade do patamar de 6,00%. O mercado de trabalho ainda aquecido e a pressão sobre salários impede uma revisão para baixo neste grupo, e consequentemente complica a vida do Banco Central.
4. Como estamos em comparação a outros momentos

A comparação dos dados atuais com o início de outros ciclos de queda de taxas de juros reforça a importância da desaceleração do mercado de trabalho como gatilho para o início do ciclo de queda de juros.
Fizemos um exercício que compara o patamar atual[2] de algumas variáveis com o nível em momentos anteriores de início de ciclo de queda de juros[3]. Além disso comparamos os dados com as metas (no caso, o teto de tolerância para a a inflação) e o nível neutro (no caso do desemprego[4]).
No passado, em momentos de início de corte de juros, a diferença do IPCA em relação ao teto da meta estava em 1 p.p., bem próximo dos 0,9 p.p. do último dado fechado de junho. As expectativas, no entanto, estão em patamar mais incômodo: +0,2 p.p comparado com -1,3 p.p. em ciclos anteriores.
No caso dos preços de serviços e do mercado de trabalho, a diferença é bastante pronunciada. No primeiro caso, os preços de serviços, que em média estavam 0,5 p.p. acima do teto da meta, agora têm um gap de 1,6 p.p. A taxa de desemprego está 2,7 p.p. abaixo do nível neutro e em outros momentos de afrouxo monetário, estava em média 0,3 p.p. acima deste patamar.
Conclusão
A análise detalhada do contexto econômico mostra que há nuances importantes para a discussão de ´política monetária. A desaceleração da inflação e a convergência das expectativas ajudadas pelo câmbio argumentam a favor de queda de juros e embasam a discussão a respeito do timing do início do ciclo. No entanto, a confirmação do afrouxamento monetário ainda depende de um ponto de inflexão no mercado de trabalho e na inflação resistente (preços de serviços). Essas variáveis serão analisadas com lupa pelos analistas de mercado e pelos membros do Copom.
[1] Dados apurados até 15 de agosto de 2025
[2] Dados de junho de 2025
[3] Usamos os ciclos de queda de juros iniciados em 2003, 2005, 2009, 2011, 2016, 2019 e 2023
[4] Usamos como referência para o nível neutro a NAIRU (Non-Accelerating Inflation Rate of Unemployment, a taxa de juros que não acelera a inflação) calculada pela Lifetime
