Ata do Copom | Primeiras impressões: reforça o cenário recheado de incertezas e a necessidade de cautela na condução de política monetária
Por Marcela Kawauti – Economista-chefe da Lifetime Gestora de Recursos
A ata da reunião do Copom da última semana de abril teve como destaque o reforço do impacto do cenário externo mais adverso sobre a decisão de juros, em linha com o comunicado divulgado na semana passada. O colegiado ressaltou que o acirramento dos conflitos no Oriente Médio elevou as incertezas e trouxe volatilidade aos preços de ativos e commodities.
Com relação ao cenário doméstico, o documento observou que a desaceleração do PIB ao final de 2025 reflete a política monetária restritiva praticada desde o ano passado, o que trouxe as condições necessárias para a continuidade do ciclo de corte de juros. Por outro lado, os indicadores preliminares de 2026 apontam para uma retomada da atividade econômica, sem alterar a tendência de desaceleração. Além disso, o mercado de trabalho segue resiliente, e os rendimentos médios crescem acima da inflação, colocando pressão importante sobre diversos preços da economia. Com relação à inflação, o colegiado demonstrou preocupação com o aumento dos riscos. A inflação corrente já incorpora os efeitos do choque de commodities, e há preocupações em relação à piora das expectativas, com desancoragem adicional inclusive para horizontes mais longos (2028).
Nesse cenário, o Comitê julgou adequado implementar um novo corte de juros de 25 bps, levando a Selic de 14,75% para 14,50%. No entanto, o Copom ressaltou que o cenário externo e a necessidade de assegurar a convergência da inflação à meta exigem serenidade e cautela na condução da política monetária. Além disso, indicou compromisso com o combate aos efeitos de segunda ordem, ou seja, deve manter a política monetária em patamar restritivo para evitar que os efeitos diretos dos conflitos no Oriente Médio sobre a inflação de alimentos e combustíveis contaminem os demais preços da economia.
Sobre os próximos passos, os diretores ressaltaram que a duração e a extensão dos conflitos geopolíticos, assim como os sinais mistos sobre o ritmo de desaceleração da atividade econômica e seus efeitos sobre o nível de preços, dificultam a identificação de tendências claras. O Comitê deve seguir, portanto, um tom parcimonioso na condução da política monetária. A evolução dos conflitos no Oriente Médio e seus impactos sobre o cenário doméstico serão bastante relevantes para as próximas decisões.
