Panorama & Projeções | dezembro 2025
O “Panorama & Projeções” é uma editoria que traz os destaques do mercado, bem como o resultado da carteira e as principais movimentações realizadas no período contemplado.
Cenário Internacional
A postura protecionista do novo presidente americano elevou as tensões comerciais ao longo do último ano. Apesar da indicação de aumentos de tarifas durante a campanha eleitoral em 2024, em 2025 surpreendeu a forma errática, a extensão geográfica e a extensão das alíquotas. Ainda que as políticas tenham adicionado ruído aos mercados com efeito sobre as cadeias globais, o crescimento do PIB americano segue positivo sustentado pelo consumo doméstico.
Os dados até o 3º trimestre do ano mostraram crescimento do PIB de 4,3% na comparação trimestral anualizada, puxado pelo consumo das famílias e setor externo. A resiliência da economia americana aconteceu apesar da desaceleração do mercado de trabalho, efeito das incertezas e das políticas protecionistas. Vale ressaltar, no entanto, que ainda pode haver alguma desaceleração adicional à medida que efeitos se intensificam e que a economia responde à maior paralização do governo americano da história. Esses números, no entanto, serão conhecidos apenas em janeiro.
Do lado da inflação também houve efeitos relacionados às novas regras de política internacional. As tarifas levaram a inflação de bens não duráveis de 1,2% para 2,0% e de bens duráveis de -0,3% para 1,3%. Mas a desaceleração de preços de serviços ajudou o índice que terminou novembro em 2,7%, abaixo dos 2,9% do final do ano anterior. Esse comportamento das variáveis justificou a retomada do ciclo de corte de juros pelo Banco Central americano: os Fed Funds começaram 2025 no intervalo entre 4,25% e 4,50% a.a. e terminaram entre 3,50% e 3,75% a.a..
Apesar da elevação de tarifas sobre produtos importados pelos Estados Unidos, a China manteve um ritmo de crescimento relativamente forte, ainda que mais moderado na comparação com o dinamismo pré-pandemia. Os estímulos governamentais, incentivo ao crédito, diversificação de parceiros comerciais e manutenção de juros baixos compensaram os efeitos do cenário de comércio externo mais desafiador.
Na Zona do Euro, a acomodação da inflação próxima da meta de 2% permitiu a manutenção de juros em patamar baixo. Mas a atividade industrial, em especial na Alemanha, decepcionou e foi parcialmente compensada pelo setor de serviços. No Reino Unido, por outro lado, a economia mais aquecida e a inflação persistente limitaram o caminho de cortes de juros do Banco Central.
No campo geopolítico, as tensões entre EUA e China se intensificaram no primeiro semestre na esteira da elevação das tarifas do ano. Na segunda metade do ano, no entanto, houve acomodação dos atritos entre os países. No Oriente Médio, a instabilidade também se dissipou com o acordo de cessar fogo entre Hamas e Israel. Por outro lado, apesar de inúmeras tratativas, o conflito entre Rússia chegou ao final de 2025 sem uma solução definitiva e em dezembro houve intensificação de conflitos entre Venezuela e EUA.
Cenário Nacional
2025 foi marcado por uma política monetária ainda bastante restritiva no Brasil, refletindo a postura conservadora do Banco Central que persegue a inflação na meta e expectativas ancoradas. O ano começou em meio a um ciclo de alta de juros. A Selic, que estava em 12,25% em dezembro do ano passado, foi elevada até 15,00% em meados deste ano e seguiu neste patamar até dezembro. Para os próximos meses, há uma indicação condicional por parte do Copom: o ciclo de afrouxo monetário parece estar próximo, mas sua efetivação depende da melhora nos indicadores relacionados à inflação de demanda.
Este cuidado da autoridade monetária deriva da evolução das variáveis ao longo do ano. Por um lado, a Selic alta diminuiu a velocidade de crescimento da concessão de crédito e levou a um crescimento moderado da atividade. Mas a resiliência do mercado de trabalho manteve o desemprego em patamar historicamente baixo e o impulso da massa salarial sobre a economia ainda bastante relevante.
E enquanto a pressão de demanda manteve as preocupações com a inflação elevadas, a valorização do real ajudou a descomprimir os índices de preços. Ao longo do ano a moeda brasileira se beneficiou da fraqueza do dólar americano (prejudicado pela elevação das incertezas em relação às políticas externas daquele país) e do diferencial de juros à medida que o Fed cortava os juros e o BCB mantinha sua postura conservadora. Ainda que os ruídos fiscais tenham limitado uma valorização ainda mais expressiva, o real, que havia começado 2025 próximo de R$ 6,20/USD terminou o ano mais próximo dos R$ 5,50/USD.
Neste contexto os preços ao consumidor tiveram resultado melhor do que o esperado em 2025. O IPCA-15 fechou dezembro em 4,41% no acumulado em 12 meses. O número veio ajudado pela forte desaceleração dos preços de alimentação no domicílio e de bens industriais, produtos fortemente impactados pela queda na taxa de câmbio. Por outro lado, os preços de serviços ficaram próximos a 6,0% entre agosto e setembro colocando preocupação importante sobre a autoridade monetária.
Além disso, o quadro fiscal ainda é um grande ponto de atenção. O resultado primário ficou negativo ao longo do ano mesmo com a busca pela ampliação de receitas para atingir as metas fiscais. Este fator crítico pode funcionar como limitador para o relaxamento da política monetária em 2026.
