Panorama & Projeções | fevereiro 2026
O “Panorama & Projeções” é uma editoria que traz os destaques do mercado, bem como o resultado da carteira e as principais movimentações realizadas no período contemplado.
Cenário Internacional
Chegamos ao final do segundo mês do ano e mais uma vez os acontecimentos geopolíticos se sobrepõem ao noticiário econômico. Em janeiro, o destaque havia sido a captura de Nicolas Maduro que comandava a Venezuela desde 1999. Em fevereiro, o mês acabou com uma significativa escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã que envolveu boa parte dos países do Oriente Médio com potencial importante para elevação de incertezas e pressão de preços, conforme veremos a seguir.
Ainda que os acontecimentos internacionais tenham ganhado importância no mês, outros assuntos também foram importantes nos Estados Unidos. No campo político, houve o anúncio de Kevin Warsh para assumir a presidência do Federal Reserve a partir de maio, substituindo Jerome Powell que está no cargo desde 2018. A nomeação foi interpretada de forma positiva pelos mercados, uma vez que o novo mandatário é considerado moderado.
Do ponto de vista macroeconômico, os dados divulgados ao longo do mês mostraram desaceleração moderada da economia americana, o chamado pouso suave. O PIB do último trimestre de 2025 trouxe crescimento anualizado de 1,4%, perdendo fôlego em relação ao trimestre anterior quando o avanço havia sido de 4,4%. O dado reflete a menor contribuição do setor externo e a paralização do governo americano que durou 45 dias entre outubro e novembro do ano passado. Estimativas indicam que, não fosse esse impacto negativo, o crescimento teria ficado próximo de 2,4%. Por outro lado, o consumo das famílias, principal motor da economia americana, seguiu resiliente, mas já sem o mesmo impulso do restante do ano.
Os dados de inflação seguem pressionados. Embora os preços ao consumidor tenham retomado a trajetória de convergência à meta, após o pico do repasse das tarifas no segundo semestre do ano passado, os preços no atacado seguem pressionados, sugerindo que algum repasse possa ser sentido na ponta nos próximos meses. À luz desses fatores, o mercado espera manutenção de juros no curto prazo com a retomada do ciclo de cortes apenas em meados de 2026.
Por fim, no campo político, uma decisão relevante da Suprema Corte Americana suspendeu a cobrança de parte das tarifas anunciadas por Donald Trump no ano passado. Em seguida, o presidente declarou tarifas de 15% a todos os produtos importados (com exceção de produtos com impostos específicos) como substituição às cobranças anteriores. A medida teve repercussão positiva para alguns parceiros comerciais relevantes como o Brasil que teve a tarifa média diminuída de 26,3% para 13,6%.
Cenário Nacional
No Brasil, fevereiro foi marcado por uma combinação interessante: atividade ainda resistente e sinais mistos vindos da inflação, apesar da manutenção da Selic em 15% desde meados do ano passado. O mercado de trabalho ainda é o principal vetor de sustentação da economia, com taxa de desemprego em patamar historicamente baixo e pressão de salários, especialmente nos segmentos de serviços. O consumo das famílias segue bastante forte, sustentado por renda, crédito e impulso fiscal, o que ajuda a amortecer os efeitos contracionistas dos juros elevados.
Neste contexto, as leituras do IPCA, que em janeiro haviam mostrado arrefecimento no núcleo de serviços – componente considerado sensível ao mercado de trabalho e ao ciclo de juros – voltaram a gerar pressão de demanda na prévia de fevereiro e reacenderam a discussão a respeito da cautela do Banco Central na calibragem dos juros.
A indicação de novos diretores para o Banco Central do Brasil trouxe ruídos adicionais por conta da sugestão de nomes com perfil mais político, em contraste com a necessidade de perfis técnicos na diretoria da instituição. No entanto, a decisão acabou não sendo levada adiante naquele momento e a instabilidade se dissipou. Importante destacar que há duas posições ainda vagas no colegiado.
O cenário base ainda é de queda de juros na reunião de março. Não há debate “se” haverá flexibilização na próxima reunião, mas sim em relação ao tamanho da flexibilização. A definição do ritmo dependerá dos próximos dados de inflação e atividade, com especial destaque para os núcleos de serviços e o mercado de trabalho. Além disso, a evolução do conflito no Oriente Médio e seu repasse para a economia também ajudarão a ditar o espaço para cortes pelo BC.
