Panorama & Projeções | janeiro 2026
O “Panorama & Projeções” é uma editoria que traz os destaques do mercado, bem como o resultado da carteira e as principais movimentações realizadas no período contemplado.
Cenário Internacional
Janeiro foi permeado por incertezas relevantes no campo da geopolítica internacional, em especial no que diz respeito à condução da nova diplomacia dos Estados Unidos sob Donald Trump. Na Venezuela, houve a captura do presidente e mudança no comando do país e das principais petroleiras estatais. No Oriente Médio, o aumento dos protestos no Irã e a repressão violenta levaram a ameaças de intervenção americana, enquanto o avanço das tensões envolvendo rotas estratégicas de comércio de commodities energéticas reacendeu preocupações com a volatilidade dos preços do petróleo. Na Europa, destacaram-se as ameaças de Trump relacionadas à Groenlândia. Além disso, no Leste Europeu, a guerra entre Rússia e Ucrânia segue sem solução. Em conjunto, esses eventos reforçaram a percepção de um ambiente internacional mais instável.
A dinâmica da atividade nos Estados Unidos, por outro lado, tem se mostrado mais favorável à medida que a economia se adapta às novas tarifas e os efeitos da paralisação do governo americano, ocorrida entre outubro e novembro do ano passado, ficam para trás. As vendas no varejo e a criação de novas vagas de trabalho retornaram ao campo positivo, ainda que em ritmo moderado. No campo inflacionário, os dados mais recentes ainda apontam alguma resistência nos preços de serviços, mas o aumento dos preços de bens duráveis e não duráveis — principais grupos impactados pelas tarifas — parece ter começado a se dissipar, reforçando o caráter temporário do choque inflacionário.
Diante desse cenário, o Banco Central americano apresentou uma análise mais otimista no comunicado que acompanhou a decisão de manter os juros ao final de janeiro. Além disso, indicou a tendência de manutenção das taxas ao longo de todo o primeiro trimestre de 2026, com uma postura fortemente dependente dos dados para decidir pela retomada dos cortes, no chamado wait and see.
O ambiente de incerteza e a expectativa de juros mais baixos nos Estados Unidos seguem pressionando o desempenho do dólar. Nesse contexto, ativos como o real e as commodities metálicas se beneficiaram e alcançaram recordes.
Na Europa, o crescimento permanece fraco, em um cenário de restrição fiscal, apesar dos juros em patamar reduzido. Na China, os estímulos fiscais e monetários evitaram uma desaceleração abrupta, mas o enfraquecimento do setor imobiliário e da demanda doméstica segue como um entrave relevante ao crescimento.
Cenário Nacional
No Brasil, o primeiro mês do ano eleitoral foi marcado pela combinação de atividade econômica ainda resiliente e desaceleração da inflação. Os indicadores mais recentes apontam para uma moderação gradual da economia, o chamado pouso suave, refletindo os efeitos defasados do elevado nível de juros. Por outro lado, o mercado de trabalho segue mostrando resiliência, e os rendimentos médios continuam crescendo em termos reais, exercendo pressão relevante sobre diversos preços da economia.
Apesar da persistência da pressão de demanda, a inflação apresenta evidências dos efeitos da política monetária, com sinais de melhora tanto na inflação cheia quanto em sua composição. Destaque para a inflação de serviços, que girava em torno de 6,0% desde meados de 2025 e recuou para patamar próximo de 5,0% na prévia da inflação ao consumidor de janeiro.
À luz desses fatores, o Banco Central confirmou as expectativas de mercado de manutenção dos juros na reunião do final do mês e sugeriu cortes a partir da próxima reunião, em março. No entanto, a autoridade monetária ressaltou que o ciclo de flexibilização será conduzido com serenidade quanto ao ritmo e à magnitude. Em nosso entendimento, a mensagem indica que o ciclo a ser iniciado em março deve começar de forma gradual, com a extensão da flexibilização fortemente dependente da evolução dos dados.
Cabe ressaltar que a questão fiscal pode representar um limitador importante à queda dos juros. Nesse contexto, a preocupação com as contas públicas permanece como o principal vetor de risco para os ativos domésticos. As discussões sobre o cumprimento das metas fiscais, a trajetória da dívida pública e a credibilidade do arcabouço fiscal seguem influenciando o comportamento do câmbio, da curva de juros e do prêmio exigido pelos investidores.
