Panorama & Projeções | outubro 2025
O “Panorama & Projeções” é uma editoria que traz os destaques do mercado, bem como o resultado da carteira e as principais movimentações realizadas no período contemplado.
Cenário Internacional
O governo americano passou o mês de outubro sob paralisação. A falta de acordo entre executivo e legislativo para aprovação do orçamento para o ano fiscal iniciado no primeiro dia do mês limitou o acesso aos recursos públicos. Ao final do período, o shutdown já era o segundo maior da história, atrás apenas do ocorrido em 2018 quando a duração chegou a 35 dias.
A suspensão de serviços atingiu também a divulgação de dados econômicos oficiais e os analistas de mercado precisaram confiar em indicadores antecedentes para auferir a temperatura da economia americana. Os números disponíveis, ainda que menos acurados, mostram que a atividade econômica segue em desaceleração. O mercado de trabalho parece estar estagnado e as indicações são de que o consumo de bens e serviços vem desacelerando ainda que de forma paulatina, ordenada e menos intensa que indicaria o recuo na criação de empregos.
O único dado oficial divulgado neste período foi o CPI, que mede a variação dos preços ao consumidor. O índice avançou 3,0% no acumulado em 12 meses até setembro, acima do mês anterior (2,9%), mas abaixo do esperado pelo mercado. O resultado indica que a consequência inflacionária vindo da política protecionista ainda é limitada, reforçando o diagnóstico da autoridade monetária americana que indica caráter temporário desse efeito.
Neste cenário o Banco Central americano deu continuidade ao afrouxamento monetário, decidindo por um corte de 25 bps na taxa de juros pela segunda reunião consecutiva. Com isso, a taxa dos Fed Funds ficano intervalo entre 3,75% e 4,00%. Aqueda já era amplamente esperada, mas dois pontos chamaram a atenção. Em primeiro lugar, houve duas dissidências. Stephen Miran votou a favor de uma queda de 50 bps, repetindo a contrariedade da reunião anterior. Vale destacar que o dirigente acumula o cargo de Assessor Econômico da Casa Branca e têm demonstrado alinhamento com o Presidente Donald Trump em defesa de taxas de juros mais baixas. Além disso, surpreendeu o voto de Jeffrey Schmid que demonstrou preferência por manutenção dos juros no patamar anterior. Por fim, as falas de Jerome Powell, presidente da instituição, durante a sua habitual coletiva de imprensa indicaram que um novo corte de juros em dezembro ainda não está dado e que a próxima decisão do colegiado está fortemente dependente da evolução dos dados.
No campo internacional, o vaivém da diplomacia americana ganhou destaque. A aproximação entre Brasil e Estados Unidos ganhou corpo com o encontro entre Trump e Lula, ainda que não houvesse avanços concretos para diminuir as tarifas sobre produtos brasileiros. A relação com a China também teve altos e baixos. Outubro começou com o presidente americano ameaçando tarifas de 100% sobre produtos daquele país e terminou com um encontro entre os líderes de ambas as nações indicando reaproximação. Por fim, o mês foi marcado pelo acordo entre Israel e Hamas que resultou em um cessar fogo bem-sucedido e a soltura dos reféns. Outubro terminou, portanto, com um tom positivo na questão geopolítica.
Cenário Nacional
No Brasil, a inflação ao consumidor perdeu força. A prévia do IPCA de outubro ficou em 4,94% no acumulado em 12 meses até setembro, abaixo dos 5,32% do mês anterior. A desaceleração do índice cheio é uma boa notícia e foi puxada pelos grupos ligados ao câmbio (bens industriais e alimentos). Por outro lado, os preços de serviços voltaram a acelerar.
A atividade segue em tendência de desaceleração ordenada, em linha com o esperado após o ciclo de aperto monetário iniciado em setembro do ano passado. O IBC-Br, chamado “PIB mensal”, avançou apenas 0,1% em agosto (na comparação com o mesmo mês do ano passado), bem abaixo do 1,0% verificado em julho. O mercado de trabalho, por outro lado, ainda mostra resiliência e com sinais apenas incipientes de desaceleração. A taxa de desemprego para setembro segue no menor nível da série histórica (5,6%), mas o crescimento real da massa salarial perdeu força e passou de 5,2% para 4,9% na comparação anual. Vale destacar que a eventual desaceleração do mercado de trabalho com menor pressão de inflação de demanda seria crucial para dar conforto para que o Banco Central Brasileiro possa iniciar o ciclo de afrouxo monetário.
Ao longo do mês as incertezas fiscais voltaram ao radar. Além da aprovação pela Câmara dos Deputados da isenção do Imposto de Renda para pessoas físicas com ganhos de até R$ 5 mil reais, a gestão federal tem indicado políticas de incentivo ao consumo com potencial de agravar o resultado primário deficitário e apresentar efeitos inflacionários. O chamado “pacote de bondades” que inclui incentivos ao crédito consignado e imobiliário, reforma do IRPF e aumento dos programas de transferência de renda pode chegar a 1% do PIB em 2026.
A combinação de desaceleração da atividade e da inflação somada ao mercado de trabalho aquecido e pressão de demanda sobre os preços de serviços manteve a expectativa de que o Banco Central mantenha o viés conservador nas duas reuniões restantes para este ano, com o início da queda de juros apenas em 2026.
