Panorama & Projeções | setembro 2025
O “Panorama & Projeções” é uma editoria que traz os destaques do mercado, bem como o resultado da carteira e as principais movimentações realizadas no período contemplado.
Cenário Internacional
O evento de maior destaque no mês passado foi a decisão do Federal Reserve (Fed), que optou por retomar o ciclo de afrouxamento monetário nos Estados Unidos. Após manter os FED funds no patamar entre 4,25% e 4,50% desde o começo de 2025, a autoridade monetária decidiu por um corte de 0,25 p.p. para suavizar a queda na atividade econômica gerada pela nova política comercial americana.
A decisão já era amplamente aguardada pelo mercado e, portanto, não surpreendeu. Os dados do mercado de trabalho referentes a julho e agosto vieram abaixo do esperado, indicando o risco de uma desaceleração mais brusca do que a antecipada. O FOMC ainda não se comprometeu com os próximos passos, reforçando que novos cortes estão condicionados à evolução das variáveis econômicas. Ainda assim, a curva de juros precifica mais dois cortes até o final do ano como cenário base.
Sob o ponto de vista dos indicadores, nos deparamos com sinais mistos. Como citado, o mercado de trabalho vem mostrando bastante fraqueza com dados de criação de vagas abaixo do esperado pelos analistas. Por outro lado, no entanto, os dados de consumo doméstico voltaram ao terreno positivo – após números bastante negativos entre abril e maio. Além da volta da confiança (tanto de consumidores quanto de empresários), a poupança das famílias contribuiu para este cenário, funcionando como um colchão que limita a queda da demanda em um contexto adverso.
Com relação à inflação, os números vieram sem surpresas. Os preços ao consumidor têm apresentado variações maiores e parecem tender aos 3,0% no acumulado em 12 meses. Os números estão acima da meta de 2,0%, mas dentro do previsto pelos analistas. Apesar de funcionarem como limitadores ao ciclo de queda de juros, não parecem indicar descontrole da estabilidade de preços, o que dá algum conforto ao FED.
No campo político, foi destaque a falta de acordo entre o Poder Executivo e o Congresso, culminando na não aprovação do projeto que permite a elevação do teto do endividamento norte-americano, que levou à paralisação parcial em diversas esferas do governo -– comumente conhecido como “shutdown”. O evento, além de aumentar as incertezas relacionadas àquela economia, explicita a relação ruim entre os poderes e pode piorar as perspectivas de atividade econômica, uma vez que parte dos gastos e projetos governamentais fica prejudicada.
A retomada do ciclo de afrouxo monetário e a expectativa de novos cortes a seguir aumentou o diferencial de juros entre a economia americana e outros países, reforçando a fraqueza ao dólar. A moeda americana já perdeu mais de 10% de seu valor em 2025 e demonstra a pior performance desde 2000.
Cenário Nacional
Apesar do contexto de retomada do corte de juros nos Estados Unidos, o Banco Central Brasileiro manteve o viés conservador na reunião de setembro e não alterou a taxa de juros (Selic), atualmente em 15% a.a. Apesar da evolução dos dados econômicos mais positiva, ainda há pontos de desconforto importantes.
A inflação ao consumidor se encontra ao redor de 5,30%, abaixo dos 5,50% registrado entre abril e maio deste ano e caminhando para fechar o ano um pouco abaixo de 5,0%. A desaceleração do índice tem sido ajudada pela boa performance do real brasileiro, beneficiado pela perda de força do dólar americano. Mas, na outra direção, tem sido limitada pelos preços de serviços que seguem com variação próxima aos 6,0%.
Do lado da atividade, os números mostram desaceleração lenta e ordenada da economia – dentro do esperado após um ciclo de aperto monetário. Após crescimento do PIB de 3,4% em 2024, os dados mostram sinais de desaquecimento na segunda metade do ano, o que leva a crer que a economia deve avançar entre 2,0% e 2,5% neste ano. Apesar disso, o mercado de trabalho segue bastante resiliente colocando pressão sobre a demanda, o que explica a alta variação dos preços de serviços citada acima. Vale ressaltar que os dados do emprego são, em geral, os últimos a responder em um momento de inflexão do ciclo econômico.
O acompanhamento detalhado dos dados será, portanto, bastante relevante. A discussão não é mais “se” o Banco Central iniciará o corte de juros, mas sim “quando” retomará o ciclo e qual o orçamento do afrouxo monetário.
