Do pico ao alívio: por que o dólar caiu de R$ 6,20 para R$ 5,50?
Ao final de 2024, a taxa de câmbio registrou valores próximos de BRL 6,20/USD, no mais alto patamar de sua história, superando as expectativas dos analistas. Naquele momento, a economia doméstica enfrentava desafios ligados à política monetária e fiscal que levaram a uma crise de confiança e perda de credibilidade da nossa moeda. Havia dúvidas em relação à capacidade do governo federal de cumprir os objetivos de resultado primário e, também, em relação a como seria a condução dos juros a partir das mudanças na diretoria do Banco Central a partir de janeiro.

Passados um pouco mais de 6 meses, houve uma reversão importante do cenário. A taxa de câmbio recuou a partir de janeiro e tem ficado ao redor de BRL 5,50/USD, desta vez, desafiando o consenso com números abaixo do esperado. Esse movimento foi fruto de vários fatores, principalmente concentrados no ambiente externo, conforme destacamos neste texto.
AMBIENTE EXTERNO: ACÚMULO DE INCERTEZAS EM RELAÇÃO À ECONOMIA AMERICANA
O novo presidente americano, Donald Trump, assumiu em 20 de janeiro com o mandato de fortalecer a economia. O caminho que vem sendo trilhado até aqui se dá através de políticas protecionistas. Mas ao longo dos primeiros meses de seu governo, houve surpresa por conta da extensão das medidas anunciadas. As alíquotas vieram acima do antecipado e chegavam a 50% sobre produtos importados (patamar que chegou a mais de 100% no pior momento das relações comerciais entre China e USA, mas que depois foi reduzido via acordos bilaterais). Além disso, o mundo todo foi afetado pelas novas políticas comerciais, inclusive países com os quais os EUA têm relação deficitária, como o Brasil. A extensão das medidas mudou as expectativas em relação à evolução da economia americana. Mais notadamente, as projeções indicam atividade econômica mais fraca e inflação mais alta em relação ao que era esperado ao final de 2024. Este cenário também implica em menor espaço para corte de juros pelo Federal Reserve, o Banco Central Americano, o que pode aumentar as dúvidas em relação ao desempenho da atividade econômica daqui em diante. Além das tensões comerciais, que dominaram o noticiário, há questões importantes que têm prejudicado a credibilidade da economia americana. O pacote de cortes de gastos aprovado pelo governo americano ao final do primeiro semestre (“one big beautiful bill”) tem potencial de agravar a situação fiscal do país, sendo que esta já vinha em trajetória de piora desde a pandemia de Covid-19. A isso se somam as intervenções verbais feitas pelo presidente americano em relação ao Banco Central Americano, na tentativa de acelerar a queda das taxas de juros.

O resultado foi uma desvalorização expressiva do dólar americano em relação às principais moedas. De acordo com cálculos do FED, o dólar perdeu 6,7% do seu valor em 20251. A evolução em relação aos países avançados (-8,3%) foi ainda mais pronunciada do que aquela observada frente aos países emergentes (-5,3%). Estimamos que os fatores externos tenham sido responsáveis por cerca de 2/3 da queda na taxa de câmbio (BRL/USD) desde o início deste ano.
CENÁRIO DOMÉSTICO: INCERTEZAS ANTIGAS E PERSISTENTES
Ainda que os fatores exógenos sejam os principais responsáveis pela queda na taxa de câmbio, não é possível descartar a influência do cenário doméstico. Foram dissipadas parte das incertezas que se acumularam durante a crise de confiança vivenciada no Brasil durante o último trimestre do ano passado, como: 1) A nova direção do Banco Central Brasileiro se mostrou comprometida com a ancoragem das expectativas de inflação e; 2) Houve melhora da arrecadação federal (puxada pela força da atividade econômica).

Esses fatores ajudaram a amenizar o receio frente às contas públicas. E somados a outros fatores, como as surpresas positivas em relação ao crescimento doméstico, a alta nas taxas de juros e o amadurecimento do mercado de capitais brasileiro, eles ajudaram a trazer parte dos recursos que foram redirecionados ao redor do globo.
O QUE PODEMOS ESPERAR PARA OS PRÓXIMOS MESES?
O ambiente externo cercado de incertezas beneficiou a moeda brasileira e, por isso, novos desdobramentos relacionados às políticas protecionistas norte-americanas (seja anúncio de novas tarifas sobre produtos importados, negociações ou retaliações) serão importantes para determinar a evolução da moeda americana, com efeitos sobre a conversão da moeda brasileira. Se houver uma melhora no cenário com menos incertezas em relação à economia americana, parte da recente perda de força do dólar americano pode ser revertida.
Do lado doméstico, caso as dúvidas sejam redirecionadas para a economia brasileira (como aconteceu quando as tarifas sobre os produtos brasileiros avançaram para 50%), pode haver peso adicional sobre a moeda brasileira. Além disso, pode haver sensibilidade do câmbio a uma eventual piora no ambiente fiscal brasileiro.
QUAIS AS IMPLICAÇÕES DA RECENTE EVOLUÇÃO DO CÂMBIO PARA OS INVESTIDORES BRASILEIROS?
A desvalorização recente do dólar traz implicações interessantes para os investidores brasileiros. O atual nível de câmbio, abaixo da média do segundo semestre do ano passado, traz uma boa oportunidade para aqueles que desejam diversificar geograficamente o seu patrimônio. Apesar das incertezas relacionadas à economia americana, os Estados Unidos ainda são uma economia com mercado de capitais maduro e com boas oportunidades. Estamos em uma boa hora para remeter divisas para aproveitar a diversificação geográfica. Além disso, o câmbio mais favorável trouxe boas notícias para inflação. O IPCA chegou a bater 5,5% em abril deste ano, mas já desacelerou para 5,3% nos dados preliminares de julho. O destaque tem sido o melhor comportamento dos preços de bens industriais e alimentos no domicílio, em boa parte ajudados pelo câmbio. A trajetória benigna de inflação antecipa a discussão a respeito do ciclo de queda de juros e pode trazer bons resultados para a bolsa brasileira, já favorecida pelo bom crescimento da economia nacional.
