Como o tarifaço de Trump pode redesenhar o comércio global e afetar a economia brasileira
Em 2 de abril de 2025, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez o maior anúncio relacionado a comércio mundial desde a sua inauguração. Como relata nossa economista-chefe, Marcela Kawauti, no programa Nova Manhã, da Rádio Novabrasil FM, o chamado “tarifaço” impôs tarifas base de 10% sobre a compra de produtos estrangeiros com adicionais mais elevados para países específicos, como China (até 54%), Vietnã (46%), União Europeia (20%) e Japão (24%). A partir de 05 de abril, quando o novo modelo estará vigente, a tarifa média sobre produtos importados estará ao redor de 20% (ante patamar de cerca de 2% ao final de 2024).
A reação imediata dos mercados indica que as novas medidas, mais intensas do que o esperado por muitos especialistas, não foram bem recebidas. Houve recuo na precificação dos ativos de risco, em especial as bolsas americanas. Além disso, também notamos queda na demanda pelo dólar americano e valorização das moedas de Japão, Reino Unido e Europa.
Quais os impactos das tarifas sobre a economia americana?
Apesar do objetivo declarado por Trump de estimular a indústria doméstica e fortalecer a economia americana, as tarifas podem trazer efeito contrário ao pretendido. Em primeiro lugar, para que este rearranjo de fato ocorra é preciso que haja maior previsibilidade sobre a manutenção destas políticas para que os empresários efetivem as mudanças com foco no longo prazo.
O aumento dos impostos nos Estados Unidos e a possibilidade de retaliação pelos países afetados devem gerar uma queda na corrente de comércio mundial afetando as cadeias de suprimentos e prejudicando a atividade econômica. Além disso, a mudança da planta produtiva das empresas não é trivial e é bem provável que as empresas sigam dependentes de fornecedores externos, apesar dos preços mais elevados. O aumento do custo de insumos deve ser repassado (ao menos em parte) ao consumidor final, aumentando a inflação que já está acima da meta de 2,0%.
Quais os impactos para o Brasil?
Apesar da média de tarifas cobradas pelos EUA sobre produtos brasileiros ter aumentado de cerca de 2,0% para 10,0%, o Brasil foi um dos países menos afetados pelo anúncio por ter sido enquadrado na nova “tarifa mínima”. Essa será a nova cobrança para todos os produtos, com exceção daqueles sujeitos a tarifas mais elevadas (como é o caso de aço e alumínio sujeitos a tarifas de 25% a partir de fevereiro deste ano).
Os setores mais atingidos serão aqueles com maior dependência da demanda americana, mais especificamente manufatura de ferro e aço, materiais de construção, combustíveis e produtos químicos. Produtos agropecuários como café, carne e soja também devem sofrer impactos mais significativos. Por outro lado, podem surgir oportunidades de ocupar parte do vácuo deixado pela fragmentação geopolítica, ainda que ela seja em parte compensada pela possibilidade de queda na corrente de comércio mundial.
Por fim, o enfraquecimento adicional da moeda a americana e a mudança do fluxo de capitais gerada pelas novas regras protecionistas podem ajudar a manter o real brasileiro no patamar entre USD 5,70 e 5,80/BRL, apesar do ressurgimento das incertezas domésticas relacionadas à política fiscal.
Em resumo, o tarifaço tem potencial de alterar o comércio mundial de forma significativa com riscos de aumento de preços e queda de atividade. O Brasil pode ser impactado negativamente por conta de sua parceria comercial com a economia americana. A extensão dos efeitos, no entanto, só poderá ser auferida após as rodadas de negociação e possíveis retaliações que devem acontecer daqui pra frente.
